• Carlos Daleno

Em Busca do Bem-Estar: a importância do contato com a natureza para nossa saúde mental

Atualizado: 29 de mar.

Documentário aborda a importância de se reconectar com a natureza para ir do estresse à felicidade.


Antes de começar este artigo, um spoiler: o documentário Em Busca do Bem-Estar (Netflix, 2020) é tão bom que seu nome em inglês é muito mais preciso que seu nome em português: From Stress to Happiness, ou “Do stress à felicidade”.


Sim, é essa a sensação que a gente fica ao final do filme. Parece que nosso estresse, como num passe de mágica, é dissipado e a gente fica com aquele sentimento de "uau, o que aconteceu aqui?".


A vontade que temos ao terminarmos de assistir ao documentário é arrumar a mochila e partir para uma trilha para se reconectar com a natureza na busca por saúde mental e paz interior.


Por isso, para mostrar o quanto o contato com a natureza (e fazer trilhas é uma forma de estar sempre em contato com a natureza) é um importante aliado da nossa saúde mental e contra nossas angústias, resolvi escrever este artigo. Nele nós vamos ver:


O que é saúde mental?


O que fazer para curar o stress?


Quem é "a pessoa mais feliz do mundo"?


Sinopse do filme Em Busca do Bem-Estar


Ensinamentos do filme Em Busca do Bem-Estar


Encantamento com a natureza e paz interior


Um último ensinamento


Boa leitura.


O que é saúde mental?


Antes de falar do filme Em Busca do Bem-Estar, porém, cabe entender o que, de fato, é a tal da saúde mental que tanto se fala nos últimos tempos e que estamos cada vez mais buscando.


É natural ouvirmos falar em "saúde mental" e associarmos ao oposto de "doença mental". Mas saúde mental é mais abrangente que ausência de doenças mentais.


Mais do que sentimentos, ter saúde mental é saber harmonizar desejos, capacidades, ambições, ideias e emoções. Ter saúde mental é estar bem consigo mesmo e com os outros. Ter saúde mental é aceitar as circunstâncias da vida, saber lidar com emoções, sejam elas boas ou desagradáveis.


Ter saúde mental é vivenciar diariamente emoções positivas e negativas - como todo mundo - e ser capaz de processar esses sentimentos e reagir com sensatez e equilíbrio às imposições da vida, mesmo que esse equilíbrio seja alcançado com uma ou outra crise emocional, que também é normal.


Aliás, ter saúde mental é, inclusive, ter bom senso para reconhecer nossos limites e buscar ajuda quando necessário, como quando temos dificuldades em lidar com conflitos, traumas ou perturbações.


O que fazer para curar o stress?


Antes de responder a essa pergunta, é importante entendermos o que é estresse (ou stress).


Conforme a Biblioteca Virtual em Saúde, da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), estresse é uma "reação natural do organismo que ocorre quando vivenciamos situações de perigo ou ameaça. Esse mecanismo nos coloca em estado de alerta ou alarme, provocando alterações físicas e emocionais. A reação ao estresse é uma atitude biológica necessária para a adaptação às situações novas."


Então, se o estresse é um estado de alerta natural do organismo, é importante atentar para um detalhe muito importante: estresse não tem cura propriamente dita. Logo, a pergunta correta deveria ser: o que fazer para aliviar o estresse?


O problema é que, nos dias atuais, esse estado de alerta se tornou quase permanente, e nem sempre sabemos exatamente ao que devemos estar alertas.


Se estamos permanentemente alertas, sem o descanso necessário, esse estado de estresse, silenciosamente, se transforma em inquietude, ansiedade e, nos casos mais sérios, depressão.


Então já temos nossa primeira e crucial resposta para a pergunta: o que fazer para curar o stress? A resposta é descansar.


O problema é que a gente tende a confundir descanso com sono, mas dormir é apenas um dos sete tipos de descansos que precisamos, como explica a dra. Saundra Dalton-Smith no TEDx talks que apresentou.


Conforme explica ela, além do descanso físico, o organismo necessita também de descanso mental, espiritual, emocional, social, sensorial e criativo. Isso porque todas as atividades que fazemos gastam energia e essa energia nem sempre é a física.


Por isso, às vezes nos sentimos exaustos o tempo todo, mesmo tendo dormido bem à noite. Você se identifica com essa situação? Então é possível que você esteja negligenciando os outros tipos de descanso, e essa é a causa do stress.


E entrar em contato com a natureza, como ao fazer uma trilha, é uma excelente forma de praticar alguns desses outros tipos de descanso, principalmente o mental, o criativo, o sensorial e o emocional. Se a trilha for em grupo, com os amigos, inclui-se aí também o descanso social. Ou seja, cinco dos sete descansos que necessitamos.


Quem é "a pessoa mais feliz do mundo"?


Talvez isso explique porque o monge budista Matthieu Ricard, protagonista do filme Em Busca do Bem-Estar, é considerado "a pessoa mais feliz do mundo".


Em 2012, pesquisadores da Universidade de Wisconsin (EUA) constataram que o cérebro do monge produz um nível de ondas gama nunca antes relatado no campo da neurociência, significativamente muito além da média, depois de testes com centenas de outros voluntários.


O estudo revelou que, graças à meditação, ele tem uma capacidade incrivelmente anormal de sentir felicidade e uma propensão reduzida para a negatividade.


Além da meditação, Matthieu aponta a profunda conexão com a natureza como forma de alcançar esse estado de bem-estar, plenitude mental e paz interior.


"A harmonia com a natureza gera um estado de espírito muito construtivo em todos". Matthieu Ricard.

Sinopse do filme Em Busca do Bem-Estar


O cineasta argentino Alejandro de Grazia é, ao mesmo tempo, diretor e personagem real do documentário Em Busca do Bem-Estar. Sua vida agitada lhe rendeu uma ansiedade e estresse que estão à beira de se transformar em depressão. Se identificou com o personagem e seu turbilhão de emoções?


Sua esposa - e produtora do documentário - Alejandra Cordes percebe seu sofrimento e convida o monge Matthieu Ricard para uma jornada de reflexão e aprendizado pela Patagônia, extremo sul argentino, um lugar de paz e natureza exuberante.


O filme inicia com Alejandro convidando-nos para acompanhá-los nessa viagem em que compartilhará suas perguntas sobre o bem-estar, felicidade e sobre como sair de um estado de estresse e ansiedade.


A partir daí, o filme transborda ensinamentos em seus 57 minutos de duração, mas o "estalo" que vira a chave das angústias de Alejandro se dá quando ele passa a contemplar e se reconectar com a natureza.


Ensinamentos do filme Em Busca do Bem-Estar


O documentário Em Busca do Bem-Estar abunda lições de vida do princípio ao fim, e nos mostra que, afinal, viver não precisa ser angustiante ou frenético. Muito ao contrário disso: nossa felicidade está exatamente na simplicidade.


O monge budista aponta caminhos possíveis para a solução de problemas comuns a muita gente, como o estresse, a ansiedade e até mesmo a depressão.


"Não se preocupar demais com certas coisas que acabam com sua paz interior. Porque, se você não tiver paz interior, será prisioneiro de sua própria atividade mental". Matthieu Ricard.

Mas, para efeitos deste artigo, vamos focar nos ensinamentos de Matthieu Ricard sobre a importância do contato com a natureza para nossa saúde mental e paz interior.


A primeira referência a conexão com a natureza que existe no documentário não parte do monge, mas do próprio Alejandro, já quase no meio do filme.


Cético - e de mau humor porque o dia amanheceu chuvoso - ele diz que sua esposa organizou a viagem porque quer ajudá-lo a se livrar do estresse, e que ela fala sobre conexão com a natureza, mas ele não sabe como fazer essa conexão.


Após uma seção de meditação orientada por Ricard, no entanto, Alejandro entende que, para ser ajudado, ele precisa estar aberto a ser auxiliado, disposto a mudar o que precisa ser mudado. Do contrário, não haverá transformação.


"Se tivermos a intensão genuína de aprimorar algumas qualidades e de abandonar alguns estados mentais que criam sofrimento para nós mesmos e para os outros, então embarcaremos em uma longa jornada. Se fosse fácil, a vida se resumiria a 'cinco pontos para ser feliz em 15 dias'. Isso não funciona. Porque, se for fácil de mais, significa que não houve mudança. A mudança verdadeira exige treinamento". Matthieu Ricard.

Aceitar ser ajudado é, então, um passo fundamental na busca por saúde mental e bem-estar.


Mas é a conversa final com Ricard, ao pé do Monte Fitz Roy, que deixa clara a relação entre bem-estar e natureza. Afinal, cenários naturais deslumbrantes como aquele podem ajudar a iniciar um processo de maior paz interior e, a partir daí, melhorar a saúde mental.


"Quando você vive um momento de paz, de harmonia com a natureza, é possível intensificar o apreço a essa qualidade, e você pode cultivar esse sentimento de satisfação. E, se isso se tornar parte de você, você ficará bem até em um engarrafamento". Matthieu Ricard.

Encantamento com a natureza e paz interior


Ao entrar em contato com a natureza nós geramos um estado de encantamento, e é isso que nos reconecta com nossa paz interior.


"Lugares naturais incrivelmente bonitos, amplos e magníficos também elevam a mente. Fazem com que a mente se torne ampla, muito elevada. A natureza provoca admiração. E se sentirmos repetidamente essa sensação de admiração, é evidente que será um estado de espírito muito positivo. É por isso que entramos em sintonia com a natureza". Matthieu Ricard.

Essa ideia de gerar encantamento, aliás, é corroborada pela jornalista e mestre em filosofia Margot Cardoso, da revista Vida Simples, Conforme ala nos explica no artigo A arte de se encantar com a vida que se tem, ao contemplarmos uma paisagem extraordinária, a comparamos com nossa vida e "negociamos um equilíbrio", afinal, o que é o nosso problema diante da grandiosidade daquilo?


"Como não olhar com distância para os nossos projetos falhados diante da vastidão enternecedora da Chapada Diamantina, no nordeste brasileiro?" Margot Cardoso.

Segundo Margot, o encantamento deve fazer parte do nosso olhar sobre o mundo:


"A admiração não muda o mundo, mas muda a perspectiva e a forma de olharmos para ele. A admiração aumenta a nossa tolerância à incerteza e nos ajuda a acolher bem o que nos acontece, seja o que for". Margot Cardoso.

Mas esse tema, encantamento e admiração pela natureza e como isso nos ajuda a termos paz interior e melhorarmos nossa saúde mental, será objeto de um próximo artigo aqui no blog Trilhando. Aguarde.


Um último ensinamento


Para finalizarmos este artigo, uma última citação do monge Matthieu Ricard dedicada especialmente àqueles que se estressam buscando incessantemente o sucesso material:


"Se uma pessoa procura alcançar poder, glória, riquezas, prazeres mundanos, talvez seja emocionante buscar isso, mas é provável que depois de dez, 20 ou 30 anos, essa pessoa se sinta muito decepcionada e desiludida com esse tipo de resolução. E sentirá que não foi a melhor forma de usar o seu tempo. (...) Por que apreciamos a harmonia de um lugar como este? Porque nos contentamos com pouquíssimas das coisas que supostamente deveríamos ter". Matthieu Ricard.

Conforme concluir Matthieu, não existe um segredo ou uma fórmula para alcançarmos nossa paz interior, tampouco se consegue resultado em três semanas. É necessário uma transformação, e isso se consegue apenas com prática, prática e prática.


Um fraterno abraço.

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